“Tarifas de importação não são suficientes”
O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, afirmou que as tarifas de importação brasileiras já não são suficientes para proteger o País da concorrência de produtos asiáticos, ou até mesmo europeus e americanos. Ele recusa o rótulo de protecionista e diz que “a porta está aberta para investimentos no País”. A seguir trechos da entrevista.
O governo brasileiro está propondo na OMC um “antidumping cambial”?
Ainda não temos um termo exato porque é uma novidade. Chamamos de antidumping cambial, mas poderia ser uma salvaguarda. O câmbio tornou-se uma variável extremamente importante para o comércio. Quando a OMC foi criada, a realidade era muito diferente. Recentemente a relação entre as moedas foi sendo usada como variável de ajuste macroeconômica por todos e as regras da OMC ignoraram isso.
Como funcionaria o “antidumping cambial”?
O primeiro passo é estabelecer uma faixa de variação cambial aceitável. Não é atribuição da OMC, mas talvez do FMI. Definida a faixa, a OMC autorizaria países vítimas a neutralizar desvalorizações excessivas com uma medida cambial. Essa discussão está madura para ser feita agora.
Por quê?
Todos os países hoje enfrentam o mesmo problema. Como a moeda de troca internacional, que é o dólar, desvalorizou-se violentamente nos últimos anos, fruto da política monetária norte-americana, todos os países viram suas moedas valorizarem. Por mais que os países tenham tentado evitar, não conseguiram. É tão sério que a Suíça agora colocou uma trava cambial. Logo, já está havendo alternativas isoladas de países buscando uma solução. Nós achamos que o melhor é discutir isso abertamente na OMC.
O Brasil se comprometeu na OMC a adotar no máximo 35% de tarifa de importação. O câmbio anulou a proteção dessa tarifa?
Não vou dizer que anulou, mas a valorização do câmbio tornou essa taxa quase sem efeito. Para uma boa gama de produtos importados pelo Brasil, a tarifa de importação de 35% não resolve mais, especialmente na concorrência com os produtos asiáticos, mas agora até com europeus e americanos. Os mercados na Europa estão estagnados e as empresas tentam colocar sua produção a preços muito baixos em outros mercados. Claramente 35% de imposto de importação já não é suficiente para equilibrar os termos de troca.
Medidas de defesa comercial – como por exemplo antidumping e salvaguarda – podem resolver o problema?
Essas medidas ajudam. Na prática, fora o imposto de importação, o que temos é o antidumping. As salvaguardas são aplicadas em casos excepcionais. Temos feito muito antidumping, mas é pontual. Você perde um tempão investigando, com processo cheio de documentos, para pegar um produto. O peso disso na balança é muito pequeno. A questão é mais genérica.
Um dos principais países atingidos pelo “antidumping cambial” seria a China. O Brasil chegou a conversar com os chineses?
Só conversamos genericamente. Pela sondagem que o Itamaraty fez, a China não é contra. O yuan acompanha o dólar. A fonte do problema é mais o dólar do que qualquer outra moeda. Não falei disso com nenhum ministro chinês, mas o Itamaraty fez sondagem e não houve reação negativa. Eles acham a tese interessante, não se comprometem, mas não rejeitam examinar.
Depois da elevação do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para os carros importados, o governo foi acusado de protecionismo. É uma medida protecionista?
Não é protecionismo. Tenho ouvido críticas de que tomamos uma medida que encareceu os importados, mas foi numa proporção reduzida. Não atingiu o grosso das importações, que são feitas pelas próprias montadoras brasileiras. De fato, a medida atinge uma gama pequena de empresas, que podem facilmente escapar dessa tributação se internalizarem sua produção. A porta está aberta para todo mundo. Basta fazer o investimento e fabricar aqui.
O Brasil tem receio de questionamentos na OMC?
Espero que não haja. Vamos explicar e utilizar todos os argumentos para mostrar que não fomos além do que a OMC permite. Mas se houver algum painel, vamos nos defender.
A medida pode prejudicar investimentos? A JAC disse que sua fábrica está em risco.
A Hyundai tem um projeto de trazer uma fábrica para o Brasil que não foi alterado. Em relação a JAC, espero que mantenham seu investimento. A medida é para atrair as empresas, não expulsá-las.
Os importadores de carros pedem ao governo para rever a alta do IPI. Alguma possibilidade de isso ocorrer?
Muito difícil. Nós acabamos de tomar a medida, que foi longamente debatida. Não vejo motivos para mudar.
Raquel Landim – O Estado de S.Paulo
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Estou decepcionado com essa decisão do governo de aumentar o IPI das importadoras. Vocês alegam que o intuito é promover a inovação mas só estão gerando atrasos para o país. Com a chegada dos importados a preços acessíveis, a indústria nacional percebeu que teria que evoluir e muito a qualidade de seus veículos caso desejassem permanecer no mercado. Um exemplo prático disso é que a maioria dos importados vem com uma gama enorme de itens de série, muitos inclusive relacionados a segurança (ABS e Air Bag por exemplo) que são cobrados a parte pelas nacionais, o que faz com que um importado completo seja comercializado ao preço de nacional basicão. Com essa medida, vocês deixam as montadoras nacionais naquela zona de conforto onde elas sempre estiveram, já que elas vão continuar a comercializar essas carroças a preços de carrão.